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H-1B: um case de antecipação de problemas

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Em um ano em que a tecnologia disruptiva se provou real e presente, em decorrência de uma pandemia global, temos a chance de vislumbrar um futuro que já desponta no horizonte por meio de inteligência artificial, neurociência, biotecnologia, blockchain, e outros temas recentemente inseridos em nosso vocabulário.

Mas o movimento de olhar para trás, revisitando a visão de futuro que mentes brilhantes propuseram no passado pode nos trazer preciosas lições e, também, pistas.

Previsões indigestas – Em 2011, no evento “Sapphire Now” da gigante alemã de software corporativo SAP, grandes nomes como Peter Diamandis e Dr. Michio Kaku discorreram sobre tecnologias disruptivas e mercados emergentes.

Diamandis, fundador e presidente da X Prize Foundation e co-fundador da Singularity University, apresentava sua visão para o futuro através da “Era da Abundância”. Enquanto, Michio Kaku – que já era considerado um dos maiores físicos teóricos do mundo, abordava uma questão indigesta à época que o tempo provou estar correta: a interdependência entre a questão dos vistos americanos e o posto de pólo científico do mundo.

Em um trecho do evento, que pode ser assistido abaixo, Kaku aborda a relevância do visto H-1B ao país:

Alguns de vocês podem não saber, mas os EUA têm uma arma secreta: o H-1B. Sem ele, o pólo científico deste país entraria em colapso. Esqueçam o Google ou o Vale do Silício, eles não existiriam sem o H-1B, que é o Visto dos Gênios. 50% dos candidatos a doutorado dos EUA são estrangeiros. Este país é o ímã que absorve os cérebros do mundo. Remover o visto provocará um colapso na economia.”.

De volta para o futuro – Quase uma década mais tarde, o departamento de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) decretou que estudantes estrangeiros cujas instituições estiverem em operação totalmente on-line no próximo semestre devem deixar o país.

O fundador da SpaceX e da Tesla, Elon Musk, assim como o CEO do Google, Sundar Pichai, fazem parte dos milhares de imigrantes que entraram nos EUA através de vistos temporários. E ambos se manifestaram contrários à medida anunciada pela Casa Branca.

Em um editorial incomum, o MIT Technology Review defendeu que os empasses políticos que sugerem uma reforma imigratória podem provocar uma debandada de mentes brilhantes do país para países com programas atraentes como o francês Tech Visa, o australiano Global Talent e o canadense Express Entry.

Dois dos principais berços de talentos da tecnologia do mundo, a Universidade de Harvard e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) entraram com ação judicial contra a medida assinada pelo presidente Donald Trump.

Em dois minutos de audiência, programada para durar mais de uma hora, o governo concordou em recuar da medida que foi alvo de ação por 17 estados, do distrito de Columbia e diversas instituições de ensino superior. Após a decisão, o presidente do MIT, Leo Rafael Reif, publicou um artigo no jornal New York Times.

Uma manobra arriscada – Para Gabriel Ernandes Purkyt, engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), com MBA em Advanced Analytics, Machine Learning e IA pelo MIT, o impasse com os vistos voltados a estudantes estrangeiros é um tiro no pé, já que perderão algumas das mentes mais brilhantes do mundo.

Segundo Purkyt, dificultar o processo de aquisição do visto classificado por Michio Kaku como um ‘Genius Visa’, que é o Specialty Occupation ou High-Skilled Workers, já levou a uma diminuição no recrutamento internacional para MBA.

Gabriel Ernandes Purkyt, engenheiro egresso do MIT

“Uma das métricas utilizadas em rankings de universidades americanas é a porcentagem de estudantes que está no mercado de trabalho após alguns meses de formado. Com o receio de que esses candidatos a MBA não conseguissem trabalho – pela dificuldade em adquirir o visto, e isso acabar afetando o resultado no ranking, as universidades começaram a subir a barra de recrutamento e diminuir o número de vagas para candidatos estrangeiros”, afirma.

Os estrangeiros são peça fundamental para que os EUA girem a máquina do desenvolvimento científico, inovação e criação de novas empresas. Se você for para Boston ou Vale do Silício, se deparará com uma diversidade de nacionalidades enorme e candidatos acima da média dos americanos.

“Os EUA são um imã de talentos, concentrando mentes brilhantes de todo o mundo que, por sua vez, desenvolvem a economia e tecnologia do país. Na minha visão, é uma besteira dificultar isso”, conclui.

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